quinta-feira, 14 de julho de 2011

Sobre sabotagem e gratidão


Há duas semanas tentaram me matar. Pode não ter sido propositadamente, mas não importa, o fim seria o mesmo. Tudo começou na concessionária Honda Rio Tokio Recreio, aqui no Rio de Janeiro. Fui buscar o carro da revisão de 40 mil km (que por sinal foi cara pra cacete) e enquanto pagava a fatura, a tv ligada no telejornal RJTV mostrava imagens da invasão da polícia à favela da Rocinha. Isso por volta de 12h20. Nesse momento passa um funcionário e comento com ele: - Invadiram a Rocinha. Começam então a mostrar imagens de uma modelo que desapareceu e percebemos que se tratava de uma operação pra buscar a garota. Cheguei a comentar com a menina do caixa - Vou pela Linha Amarela, vai que acontece um tiroteio na hora que estou passando?

Peguei o carro e fui direto pro trabalho. Achei meio estranho, a direção mudava quando passava em alguma irregularidade da pista. Como tinham feito rodízio dos pneus mas eu não havia autorizado o alinhamento, imaginei que por isso estivesse ruim de controlar o carro e pensei em voltar lá no dia seguinte. Indo pela Avenida das Américas com pista livre, decidi ir pro Centro direto pela Lagoa-Barra e economizar no pedágio, claro. Foi a minha sorte.

Passei pelo elevado do Joá, Zuzu Angel tranquilo, mas na descida do Túnel Acústico, em frente a PUC, comecei a escutar um barulho de ferro batendo vindo do fundo do carro. Assustado, parei no primeiro posto de gasolina, em frente ao Parque dos Patins na Lagoa, pra ver se os parafusos das rodas estavam apertados, porque a impressão que tinha era que a roda iria se soltar a qualquer momento. Como não vi nada, continuei viagem. Um pouco mais à frente, ouço um barulho forte na frente do carro e perco a direção completamente. Desgovernado, o carro começa a sair pra direita, mas consigo reduzir e controlar antes de bater no meiofio. Milagrosamente, não havia nenhum veículo ao meu redor. Saio e vejo que a roda esquerda está completamente virada pra direita enquanto a roda direita permanece reta: simplesmente a barra de direção do lado esquerdo havia se soltado! Sinalizo a pista e logo depois vem a CET-Rio, primeiro um motociclista e depois um reboque pra me tirar da Av. Borges de Medeiros. Isso aconteceu por volta das 13h, bem atrás da Paróquia São João, uma igrejinha ao lado da Hípica.

As possibilidades para o que aconteceu, na minha cabeça. Ou alguém na Honda Rio Tokio planejou me matar sabotando meu carro (pouco provável) ou começaram a fazer o serviço de alinhamento do carro (que não havia sido autorizado) e ao perceberem que não deveria ser feito, desceram o carro e não colocaram de volta o contrapino que mantém a porca da barra de direção no lugar. Com a proximidade da Copa e das Olimpíadas, as ruas do Rio de Janeiro estão em obras por todo lado, além dos costumeiros buracos. Foi necessário pouco tempo até o parafuso se soltar e quase causar um acidente mais sério. Fico imaginando se tivesse ido pela Linha Amarela...

Mas não fui, o que me deixou muito feliz. Voltei com o carro pra concessionária (quando cheguei lá de volta já eram quase 18h) e consegui me manter sereno, mesmo depois de ter perdido um dia de trabalho e quase ter virado paçoca. Conversei com o diretor da empresa que me aguardava com o cú na mão e conversando chegamos a um acordo. O supervisor que dá a última volta com o carro antes de entregar pro cliente também estava lá. Ele se lembrou de mim: era ele que estava passando no hall quando comentei sobre a invasão na Rocinha mais cedo.

Apesar de ser ateu, achei que deveria voltar na Paróquia São João e demonstrar minha gratidão. Foi o que fiz hoje. Entrei, fui até o local onde ficam umas velas eletrônicas. Hoje é assim, nada de velas de parafina. Enfiei a mão na mochila, saiu uma moeda de um real mas achei melhor trocar por outra de 50 centavos pra acender uma (afinal, como estava escrito na plaquinha, o que conta é a intenção!). Decidi então filmar, achando que ninguém acreditaria em mim, enfiei a mão na mochila e a moeda de um real saiu mais uma vez! - Tudo bem, pensei, vai ficar bom no vídeo! Me permiti vagar alguns instantes naquele lugar bucólico e curtir alguns momentos de turista na minha cidade. Engraçado como passamos várias vezes por um lugar e nunca reparamos nos detalhes...


Depois, subi na minha moto e vim pro trabalho. Abro meus e-mails e resolvo dar uma olhadinha no Facebook. Um comentário da minha prima Juliana me chama atenção: hoje completa 18 anos da morte do seu pai, meu padrinho, saudoso e querido tio Fábio. Emocionado, percebo que a sequência de eventos finalmente parecem fazer algum sentido e o verdadeiro motivo de ter acendido duas velas na Paróquia São José. Obrigado por tudo padrinho, se hoje tenho alegria de viver, foi porque aprendi com você.